sexta-feira, 29 de junho de 2012

Chá de maçã, gengibre e limão siciliano

Tem uma história que guardo na memória, de quando menina na casa de minha vó materna aprendi fazer o chá de brasas. Engraçado como tem coisa que a gente não esquece, passa o tempo e vez em quando essas lembranças voltam e nos fazem sorrir, e a história do chá de brasas é uma delas
Um tempo atrás comentando sobre memórias de família com a amiga Carla Maica que publicou um post sobre isso, e está aqui no seu blog Cucina Artusiana, nesta conversa mencionei sobre essa minha lembrança - de quando aprendi fazer o chá de brasas, ela ficou curiosa e me sugeriu que fizesse um post sobre . Eu prometi publicá-la quando tivesse uma receita bem gostosa de chá para trazer para vocês. E este dia chegou, vou contar a história do "chá de brasas" que penso ser a minha primeira experiência culinária.


Quando criança na casa de meus avós era costume todas as noites a família se reunir depois do jantar, para contar as novidades do dia e assim esperar o sono vir, eles dormiam cedo porque levantavam muito cedo, pois antes do sol sair já iam para o eito. Enquanto os adultos contavam sobre suas lutas diárias, as crianças brincavam, mas teve uma noite  que foi diferente, fazia frio e as crianças estavam meio encorujadas quando meu tio Dário, talvez para nos animar  ou tentar espantar o frio, inventou de fazer o tal chá. Dos primos que participaram desta aventura gastronômica só me lembro da minha prima Alzira, (éramos da mesma idade, e onde estava uma, estava a outra) dos outros não me recordo quais eram, mas a cena daquele momento ficou gravado em minha mente.
A cozinha da minha vó era ligada à despensa, nessa despensa existiam grandes caixas de madeira onde eram armazenados os cereais básicos ( arroz, feijão, farinha de trigo, fubá), latas de gordura de porco com suas carnes fritas dentro, essa era a única forma de conservação, pois naquele tempo não existia por lá energia elétrica, muito menos geladeira. Varais pendentes presos no teto com linguiças produzidas  para o consumo ficavam à mostra, também pendente do teto cestas cheias de ovos que eram para o uso diário e o excedente  para a venda. Moedor de café preso sobre um tronco de madeira que era fincado no chão de terra batida, cilindro também preso em madeira e fincado no chão. Na cozinha tinha uma mesa grande onde preparava todas as coisas, inclusive onde lavavam os trens de cozinha com a ajuda de duas bacias grandes - uma para lavar outra para enxaguar.
É este cenário que conservo nítido em minha mente daquele momento vivido em minha infância, onde a curiosidade misturava-se com a alegria de descobrir algo novo.
O fogão à lenha ainda conservava suas brasas acesas cobertas por uma camada de cinzas, na chapa uma chaleira de ferro com água quente que sempre estava ali para uma eventual necessidade. À roda do fogão estava eu, minha prima Alzira,  mais dois primos e meu tio que iria nos ensinar fazer o tal chá. Cada qual com uma caneca de ágata na mão, estávamos atentos para seguir o passo a passo. E aqui vai a receita como foi ensinada e como a fizemos: colocamos açúcar cristal (açúcar refinado era um luxo para poucos) na caneca. Com uma tenaz escolhemos  duas ou três brasas vivinhas (essa era a parte mais perigosa), assopramos para tirar toda cinza e  as deitamos sobre o açúcar para queimá-lo e assim caramelizar. E por fim juntamos água fervente, retiramos o carvão (brasa apagada), e estava pronto o chá de brasas.
Eu não me lembro do gosto mas devia estar horrível. Era  uma receita bem tosca, um arremedo se comparado com os chás que temos hoje à nossa disposição e também um sacrilégio para os japoneses que apresentam seus chás maravilhosos com todo aquele cerimonial com tradição milenar.
Tosca ou arremedo não importa, o que fica na verdade é a lembrança de um momento que vivi em família no aconchego da casa de minha vó, que me faz sentir uma baita saudade e a consciência de que sãos esses momentos que vivemos é que nos dão sentido à nossa vida e nos fazem pessoas mais felizes.
Essa lembrança como tantas outras dançam deliciosamente em minha mente fazendo um carinho no meu coração. 


E agora a receita do chá  de maçã, gengibre e limão siciliano que eu trouxe para vocês, este eu garanto que é delicioso.
Ingredientes:


1 maçã 
um punhadinho de cravo da índia
4 colheres (sopa) de açúcar
1 pedaço de gengibre fresco 
1 limão siciliano
750 ml de água filtrada


Modo de preparar:


Descasque a maçã (reserve a casca), pique em cubinhos bem pequenos e coloque o suco de meio limão siciliano. Reserve. Retire a casca do limão siciliano mas tomando o cuidado para não deixar a parte branca  (para não amargar o chá). Reserve.


Em uma panela coloque o açúcar, a casca da maçã, a casca do limão, o gengibre e os cravinhos. Leve ao fogo para  derreter o açúcar e caramelizar. Quando estiver com uma cor dourada mas sem deixar queimar junte a água e deixe ferver por mais ou menos 10 minutos. Retire, coe e leve novamente para o fogo. Escorra bem a maçã que estava macerando no suco do limão e junte ao chá que está no fogo e deixe ferver por mais um pouco. Desligue e sirva quente com gotas de limão.

13 comentários:

  1. Este chá deve ser uma maravilha.
    Deve cair muito bem no inverno.
    Obrigada pela partilha do chá e das suas memórias!
    Beijos

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  2. Ficou ótimo o seu post. E este chá parece delicioso.

    Abraços, Fabiana
    http://sabornoprato.blogspot.com.br

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  3. Lourdes estou aqui a imaginar o sabor e aroma deste chá.
    As suas lembranças do chá de brasas... ah que estória encantadora.
    bjo

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  4. Que lindo post Lourdes!
    Me senti na casa dos seus avós tomando um chá com vcs. Recordações e momentos como este não tem preço e fazem a vida valer a pena não é? :)
    Adorei a receita tbém.
    Bjão
    Tania Minatel

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  5. Fiquei imaginando essa cozinha e seus alimentos, ali, vivos e cheios de história para contar. Sou dessas saudosas profissionais que sentem falta até do que não viveram. Adoro lembranças, fazem a cozinha da gente ficar mais viva, mais pessoal e especial. Adorei seu chá de brasa, Lourdes. Com certeza não o tomaria (rsrs), mas sinto uma alegria gostosa de pensar na voz do seu tio dando o passo a passo de uma receita só para divertir. O chá de maça ficou muito bonito. E combina com esse papo que podia durar em uma conversa entre amigas. Obrigada por compartilhar a lembrança e a receita. =)

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  6. Oi, querida Lourdes!
    Essa sua história pareceu-me as da minha mãe, que foi criada em fazenda, no interior do Rio de Janeiro. Adorava quando ela descrevia essas coisas antigas e rústicas que nas cidades não existiam mais. Os fogões de lenha eram irresistíveis nas histórias dela, assim como o ferro de engomar as roupas. Os dois movidos à brasa!
    Daí que, lendo suas lembranças do chá de brasas, veio uma saudade gostosa e doída. Ah, que falta faz a D. Nini!
    Bjsssssssssssssssssss, quérida!
    P.S.: Vou experimentar o seu outro chá, sem brasas! rsssssssssssssss

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  7. Fico imaginando essa cozinha, essas engenhosidades do homem para garantir bons frutos antes da eletricidade. Depois que li seu post, aflorei uma saudade quase profissional, dessas que dão na gente mesmo sem ter vivido. Com certeza não provaria seu chá de brasa, rsrsr, mas adorei imaginá-la menina com uma caneca na mão e uma curiosidade digna de uma cozinheira nata. O chá de maça deve ter ficado tão gostoso e acolhedor como essa sua prosa. =)

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  8. Lourdes,

    Você é uma excelente contadora de histórias: consegui ver nitidamente a cozinha da casa da sua avó. Linda cena das crianças ao redor do fogo para fazer o chá.

    Essas memórias, minha amiga, são as coisas mais preciosas que podemos ter em nossos corações e agradeço por compartilhar conosco, pois histórias assim, nos enchem de ternura.

    Um beijo carinhoso.
    Carla Maicá

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  9. Ahhhh...mas com certeza nessa época vc achava ótimo esse tal chá só pelo gostinho de aventura que ele proporcionava...Muito bacana Lourdes, adorei!
    E vou experimentar esse seu chá de maçã e qdo o fogão à lenha do sítio estiver aceso vou fazer o chá de brasas rsrsrsr Beijos

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  10. Lembranças de família são inesquecíveis e eu amei seu chá maravilhoso! Amo chás e nunca experimentei esse! Obrigada pela dica e pelo ótimo post!
    Bjs e ótimo domingo para vc e sua família!
    CamomilaRosa

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  11. Querida Lu, conforme fui lendo seu realto, tentei visualizar cada passo a passo da cozinha de sua vó, das crianças à volta do fogão, os seus rostinhos alegres e curiosos. Adorei, são recordações que jamais se perdem, pois as guardamos no coração. Amei. O seu chá está divino Lu, delicioso. Bjos, excelente final de semana

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  12. Oi, Lourdes!
    Se tem uma coisa que lamento na vida é não conseguir gostar de chás...
    Aqui na minha região, por ser quente demais o ano inteiro, não temos esse costume. O que ainda tomamos de quente é o café e olhe lá.
    Sou apaixonada por xícaras e bules, e tenho até uma pequena coleção deles... mas, são usados como peças decorativas, já que aqui ninguém gosta de chá.
    O que ainda tomamos são aqueles chás gelados que compramos prontos nos supermercados ( o de pêssego, por exemplo, é uma delicia).
    Quem sabe um dia eu experimente um bem gostoso e comece a apreciá-los, não ? rs
    Beijo! Amei a sua história e seu chá (ainda que em foto).

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  13. Oi, Lourdes... sobre o comentário na 'tapioca':
    Eu não gosto de queijo muçarela... prefiro sempre os mais suaves, tipo o prato, queijo de minas ou outro menos forte.
    Se você experimentar com queijo prato, tenho certeza de que vai gostar.
    A de coco é gostosa, mas como prefiro os sabores salgados, gosto mais das outras.

    Qto ao comentário na sua foto, eu vejo sim o texto. O que eu quis dizer é que, mesmo sem sentirmos o aroma e o sabor dos seus pratos, mas que pela foto dá pra perceber que são feitos com muito carinho e que por isso, devem ficar deliciosos.
    Beijo! Ótima semana pra vc!

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